A Travessia do Oceano Pacífico

Por: Capitão Diego Maio

E quase que de repente era chegada a hora, uma conseqüência natural de três anos e meio de dedicação a viajar pelos mares no mundo. Se colocavam a nossa proa nada mais nada menos que o maior oceano do planeta, e a mais longa travessia sem escalas das nossas vidas.

Vocês estão prontos nos perguntavam? Tão prontos quanto jamais estaremos. Esta é uma resposta padrão, em tom de brincadeira entre os velejadores, mas ela diz muito. As vésperas da partida não há milagre a ser operado, e o trabalhado de preparação já tem de estar concluído, ou tão concluído quanto possível.

Como estar pronto pra algo que você nunca viveu? Essa pergunta nos assola em diferentes momentos da vida, geralmente momentos marcantes, importantes, decisivos. As 3 mil milhas entre Galápagos e Polinésia Francesa, representavam uma barreira a ser transposta que iria testar nossa capacidade como time, como velejadores, como gestores de um projeto ao qual viemos nos dedicando plenamente nos últimos anos.

Carregávamos conosco certa bagagem de nossos anos no mar, extensivas navegadas costeiras, travessia Brasil-Caribe, a navegação entre Ilhas, um furacão e muitas passagens mais ou menos longas ate o Panamá. Longe de qualquer obsessão, tínhamos o Pacifico Sul estampado no fundo de nossos sonhos, e sempre foi claro pra nós que a maneira como o caminho é trilhado indicaria se estávamos no caminho certo.

Raramente nos apressamos, mas também não perdemos tempo. Gosto de brincar que tenho a bússola do Jack Sparrow sempre apontando o caminho certo, e Georgia tem o dom de saber o momento adequado. Numa mistura constante de ímpeto e hesitação avançamos, sempre tratando o próximo porto como destino final, celebrando cada chegada, lamentando cada partida.

IMG_1681~photo
Tripulação minutos antes da partida: Capitão Diego, Georgia, Elisa, Cadu e Rafaella

Num lindo sábado de sol na ilha de Santa Cruz, barco abastecido, burocracias cumpridas e tripulação empolgada, cabia a mim o capitão dar a ordem de subir ancora e comandar o Unforgettable 3 rumo a semanas de navegação a fio. Racionalizo e tremo, racionalizo e me tranqüilizo.

Tremo, pois sei que as outras quatro almas no barco depositam infinita confiança na minha capacidade de lhes levar em segurança até o outro lado do mundo, sei também que o inesperado existe, que sou falho, que ainda estou aprendendo a navegar, e que o Oceano apesar de Pacifico representa a forca maior desse planeta.

Me tranqüilizo pois, foi o povo Polinésio que agora tenho a honra de conviver, que a 2 mil anos atrás fez as primeiras grandes viagens oceânicas no planeta terra, e desde então, os chineses, os nórdicos, os europeus incluído os portugueses dos quais descendo singraram o planeta em embarcações a vela.

Ao decidir navegar o mundo, não estávamos inventando moda, muito pelo contrario, ao iniciar nossa jornada pelo Pacifico, encontramos dezenas de barcos na mesma rota, famílias, casais de idade, lobos solitários e bando de amigos dispostos a sofrer com as delicias da vida no mar.

A decisão de vir ao Pacifico sul foi pensada, repensada e “rerepensada”, a preparação se deu lenta e continuamente ao longo de um ano. Livros foram lidos, idéias discutidas, Planos A, B e C traçados para as diversas situações, mas claro, há sempre um tanto entregue a Deus.

Tranqüilizo-me ao pensar na tripulação, se foram valentes o suficientes a se entregarem a essa jornada, não seria no apuro que lhes faltaria coragem ou disposição. Penso no mar e relaxo um pouco mais, entidade esta que brindou os mais felizes momentos da minha vida, o tenho como um grande amigo e não espero dele facilidades, mas tampouco espero muita sacanagem.

E assim partimos, 3000 milhas náuticas em contagem regressiva, o primeiro remédio era não pensar no tempo ou distância que faltava, deixaríamos isso pros dias finais, deixávamos pra trás as selvagens ilhas de Galápagos, a segurança do porto, a internet, a cerveja gelada e todas as demais conveniências.

Muitos me aconselharam e eu repetia pra mim mesmo, aproveite a travessia, será única e especial, ainda que eu repita, não será mais a primeira vez. Com essa mentalidade e com muito foco na navegação me ocupei na primeira semana, ao princípio ventos leves e depois quatro dias seguidos de fantástica navegada de través somando muitas milhas para a conta.

A pescaria mais do que obter alimento é uma distração, a cada peixe fisgado é um evento, e depois vem o processo de limpar e cozinhar o peixe e da melhor forma possível honrar o animal. Olhando pra trás me alegra ver o quanto aprendi com os entusiastas que encontrei no caminho, saindo de Floripa foi somente na Bahia que fisgamos um peixe, hoje ao navegar já conto com um ou outro peixe pra engordar a despensa, e nessa navegada foram 6 belos peixes fisgados, poderiam ser mais, mas enquanto tínhamos peixes no freezer o esforço de pesca era interrompido.

Além de mim e da Georgia, completavam a tripulação nossa amiga de longa data Elisa, e o casal Cadu e Rafa, todos inexperientes quanto a navegação oceânica. Eles compensaram sua inexperiência com atenção redobrada, com entusiasmo, cooperação e muito bom humor. Sabíamos que muitos iriam olhar atravessados a nossa decisão de levar tanta gente novata ao mar, mas tínhamos muito claro que uma tripulação afinada e com a atitude certa já seria bom o bastante.

IMG_2131

Ao longo dos primeiros dias me ocupei de passar instruções básicas de como reagir nas diversas situações que poderíamos enfrentar como temporais, velas batendo, falha de piloto automático etc. Além do que já foi dito, tivemos a sorte de contar com três ávidos estudiosos a bordo e cada informação passada, era assimilada e seguida a risca. Por vezes no início da travessia, faltava-lhes confiança pra tomar uma ação ou outra, e meu sono era freqüentemente interrompido pra resolver algum problema. Com o passar dos dias a confiança dos novatos cresceu e com ela minhas horas de sono. Só tenho a agradecer a estes três marujos, que agora ostentam mais de 4 mil milhas navegadas e uma passagem de linha do Equador, a desenvoltura dessa turma faria muito marujo velho passar vergonha. Enfim, foram poucos dias ate que eu pudesse tirar a tripulação da minha lista de preocupações.

Guardava em meus pensamentos as fragilidades de nosso plano, a cada dia vencido uma oração e agradecimento, Obrigado Piloto Automático, Obrigado Velas e Estaiamento, Obrigado Leme e Casco… A cada manhã me enchia de alegria ao ver um mar tranqüilo e uma brisa forte o suficiente pra nos levar adiante na velocidade planejada, as previsões meteorológicas que vinham de terra indicavam que assim seriam dias a fio. Ter alguém em terra olhando as previsões foi um alento, diminuía a sensação de isolamento, tranqüilizava e elevava a moral, obrigado Duda pela dedicação.

Vocês sabem por que um veleiro não vira? Pois tem lastro, aqui no Unforgettable alem das 4 toneladas que carrego na quilha, tenho o privilégio de ter a Georgia a bordo, meu lastro emocional e mantenedora da estabilidade em todos os aspectos. Lembro que anos atrás quando sonhávamos com destinos distantes ela dizia, – Ah mas nessa ai eu vou de avião e te encontro lá… – Hoje essa simples sugestão soaria como um insulto, a ela e a mim. Não gosto de navegar até a esquina sem o detalhismo e atenção de minha oficial, abnegada e resoluta, mantêm os olhos no prêmio e se regozija com a maravilhosa sensação de conquista a cada porto novo.

DSC_1136

Chega um ponto da travessia em que os dias parecem se repetir, mesmos horários, mesmos rituais, mesmas ações a serem tomadas, cabe então ai a tripulação adicionar um tempero para quebrar a monotonia.

Celebramos as primeiras 1000 milhas, a metade do caminho, as mil milhas faltantes, aniversario da Rafa. Jogamos carta, e todas as segundas feiras tomávamos um requintado chá da tarde no melhor estilo inglês. Tivemos aula de francês, e todos se alternavam a discorrer sobre os livros/ filmes que vinham lendo/assistindo. Golfinhos e eventos meteorológicos e astronômicos também contribuíam pra quebra da rotina.

IMG_3039
Amigo secreto para comemorar a metade do caminho

Do ponto de vista técnico a navegada foi bastante exigente, por se tratar de uma rota praticamente sobre o corredor dos ventos alísios eu sinceramente esperava mais vento. Não que este tenha faltado, mas o ponto crucial era não ganhar latitude (rumar sul) muito cedo e assim se manter sob as correntes oceânicas favoráveis mais fortes. Para isto no entanto era preciso navegar com vento na alheta e este com menos de 12 nós faz com que no balançar das ondas as velas batam, o que pode se tornar um grande incomodo com o passar do tempo além de danificar o equipamento. Então se trabalhou em um acordo entre rumar alguns graus a mais para o sul e orçar o barco para ganhar um ângulo de velejo melhor nos momentos de vento fraco e arribar um pouco mais e navegar quase que a Oeste puro quando o vento aumentava. A posição dos carrinhos da Genoa foi de extrema importância, bem como alguns outros ajustes finos pra manter o desempenho.

Jimmy Cornell é um famoso velejador e escritor com inúmeras contribuições à comunidade cruzeirista, em sua bíblia World Cruising Routes ele detalha: na primeira metade do caminho os pirajás são leves e rápidos, já próximo a chegada eles ganham força. A descrição não poderia ser mais precisa, se por um lado aprendemos tranqüilos a manejar os pirajás da primeira metade, por outro foi com certa incredulidade que recebemos as tormentas as vésperas de chegar.

Em uma das noites, faltando 15 minutos para o fim do meu turno uma maciça parede de água nos cercou, despejando ventos fortes e muita água, e levantando grandes ondas. Foram os 45 minutos mais tensos da travessia, a tripulação inteira mobilizada, as meninas de prontidão na cabine nos auxiliando como possível, e eu e Cadu lidando com o leme e as velas. Tínhamos a Genoa no primeiro Rizo e a vela mestra no segundo, na primeira folga do vento conseguimos enrolar um pouco mais da Genoa, ligamos o motor e arribamos bastante o barco, quase numa popa sendo empurrados com força e surfando grandes ondas em alta velocidade, num rumo não ideal achamos nossa brecha. Completamente molhados e cheios de adrenalina, depois de quase uma hora desfrutamos de um prato de sopa de feijão quente e reconfortante.

IMG_3007

Nesse cenário é preciso tentar entender a lógica do Pirajá, o vento gira pra todos os lados, mas essa enorme nuvem está se deslocando pra algum lugar. No meio do aguaceiro é preciso prever qual a melhor alternativa pra ficar o menor tempo possível dentro do turbilhão e ajustar as velas de modo a não arriscar a embarcação e o equipamento.

Os anos de trabalho na indústria offshore me ensinaram muito sobre a vida embarcada, e trago pra dentro do “Unfo” muitos desses ensinamentos. Uma das práticas adotadas foi a da reunião semanal, onde se cria um espaço pra avaliação do andamento até ali, projeções futuras e se abre um espaço para discussão geral de procedimentos a bordo, o que funciona, o que precisa melhorar etc. Evita-se assim a queixa cotidiana, o ranço do dia a dia, se lava os pratos todos nesse único dia e diante de todos, sem picuinha ou sacanagem, foi uma experiência muito bem recebida pela tripulação e de resultados incríveis, a cada semana a performance geral de todos melhorava.

Se eu lhes disser que não fiquei apreensivo estarei mentindo, mas no geral grande parte da travessia estive em excelente estado de ânimo, aproveitando o conselho antes mencionado de curtir intensamente a travessia. Abalos maiores apenas no dia em que detectei uma quantidade anormal de água no porão e vi que nosso controle automático da bomba havia estragado e nas maiores adernadas uma boa quantidade de água retornava pela tubulação da bomba de porão, eu adoro água salgada mas somente enquanto ela esta fora do barco. Além disso, no mesmo dia, verifiquei que a bucha do leme não estava tão apertada quanto eu gostaria e também vazava um pouco, reparos aquela altura estavam fora de cogitação, e restava confiar na robustez do barco. Convoquei a tripulação e pedi a todos que monitorassem o porão e ligassem a bomba sempre que necessário. Passado o susto inicial e com a tripulação dedicada à proposta a minha serenidade aos poucos voltou.

A medida que baixavam as milhas restantes uma certa saudade antecipada surgia em meu coração e a tranqüilidade crescia, com menos de 500 milhas sabia que muitas das falhas que poderiam ocorrer seriam mais facilmente enfrentadas. Por um lado havia certa pressa de chegar e sair enquanto estava ganhando, por outro queria viver um pouco mais daquela doce e inesquecível aventura.

O futebol ensina que o jogo não acaba enquanto o juiz não apita, e com a mesma seriedade levamos o barco nas milhas finais, mas foi impossível conter as lágrimas ao ver o contorno da ilha de Fatu Hiva se descortinando num amanhecer de Maio. Eu havia sonhado com isso mais vezes que posso contar, o trabalho, a dedicação, a abnegação por um propósito, a distancia da família e dos amigos, tudo estava se pagando ali, tínhamos a convicção que todos nossos queridos estavam de longe também vibrando com essa conquista. A base de muito empenho dobrávamos o maior oceano do planeta em pouco mais de 19 dias, faltavam 30 milhas pra ancorar, tirar o grito da garganta e descansar.

DSC04708
Atum pescado quase chegando

A medida que aproximávamos a ilha, sua beleza se apresentava em cada novo contorno visível, o sol se levantava num dourado único e o som da carretilha disparando ao fisgar um belo atum soou como um presente de Netuno, como se estivesse dizendo “- Parabéns marujos, vocês conseguiram e fizeram por merecer”.

Ao montar a ponta norte da ilha ainda não era possível enxergar onde largaríamos âncora, na literatura náutica, a ancoragem de Hanaiapa é frequentemente descrita como uma das mais belas do planeta, e era impossível manter a expectativa baixa. Navegamos mais um pouco e entre dois paredões de rocha se erguiam torres de pedra que emolduravam um vale com todos os tons de verde, uma baía de águas calmas e azuis e um pequeno porto ao fundo. Alguns minutos depois coube a mim mais uma vez dar a ordem de descer âncora, engatar a marcha a ré, sentir o barco unhar, olhar orgulhoso pra minha tripulação e dizer em voz alta

– Senhoras e senhores, bem vindos a Fatu Hiva, ILHAS MARQUESAS, POLINESIA FRANCESA!!!!!

AHA UHU- A Polinésia é nossa!!!!!!!!!!!!!!

DSC04747
Baía de Hanavave – Ilhas Marquesas, Polinésia Francesa

8 comentários em “A Travessia do Oceano Pacífico

  1. Impossível não emocionar com edta narração Capitão!👏
    A emoção só é menor que a vontade de fazer essa travessia .
    Abraços fraternos a todos !e bons ventos

    Curtir

  2. Fantástico! show! Que vidão que vcs tem, com certeza precisa de muita coragem e dedicação a todos os detalhes dessa viagem; loucura total. Parabéns que DEUS continue abençoando o casal e bons ventos!

    Curtir

  3. Diego, Georgia. Tem sido para mim uma alegria acompanhar os diversos videos de vocês nesta aventura e experiência incrível de vida. Sempre estive em contato com o mar velejando em barcos de oceano. Porem, com a idade reduzimos um pouco as aventuras e o foco de nossos vidas. Mas ao acompanhar seus videos e a vida de vocês, decidi uma mudança de bordo indo atrás de uma vida mais saudável, atividades físicas e revendo conceitos em nosso dia a dia. Vou voltar ao mar e quem sabe nos encontramos em algum porto nestes mares azuis. Obrigado pela inspiração, que Deus abençoe avida de vocês, bons ventos e grandes velejadas.

    Curtir

  4. ORGULHO……
    E o que um velejador pai,sente neste momento.Ver seu rebento,lançar-se ao mar,acompanhado de sua companheira e corajosamente,enfrentar o oceâno Atlântico,o Pacífico e cjegar a longínqua Polinésia,é um feito memorável,que com certeza,será muito comentada,pelos meus netos.
    Ah Diego Maio,eu e tua mae,sabiamos que eras diferente,destemido e determinado e que farias história,mas nao poderiamos saber,que o destino colocaria a teu lado,uma leoa guerreira,que iria te acompanhar,em tuas jornadas.Somos gratos a Ge,pois sabemos o quáo importante,ela o é,pra ti…..
    Meus parabens filhotes,por permitirem,atraves de vcs,realizar mais este maravilhoso,sonho…E falta muito pouco,para realizar mais um,o de reencontra-los e fazer ,maravilhosas navegadas,na melhor companhia..
    .bjs

    Curtir

  5. Q show, adorei o relato 🙌🏻 Me senti nessa aventura tb 🙏

    > > D.Sc. Alessandra F.Fischer > >•´¯`•.¸¸.>

    Enviado do Yahoo Mail. Baixe o aplicativo

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s